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Ascendo um cigarro em memória da minha desmemoria, trago-o sem remorso do mal que faço a mim mesmo, do mal que faço a pessoa sentada ao meu lado que diz que me ama e que eu esquecera de amar. Sorvo aquela fumaça branca aparentemente filtrada em meus pulmões com tal força quanto não anistio a desmemoria de quem amo.
Em meus lábios fica um doce sabor, é como se pudesse me lembrar da minha infância que por ter sido tão feliz já não me recordo mais. É incrível como não me lembro dos sorrisos que dei quando criança, é incrível como não rememoro de muitas pessoas que passaram em minha vida e a marcaram. Mas aquele ser em específico, que não me identifica em meio aos outros, não esqueço. É como o cheiro grave e arrastado desta fumaça que me remete a uma viagem as Índias, sempre que o sinto sei qual sua origem, sei qual o teu sabor.
Observo a brasa consumir lentamente esta porção de fumo e especiaria enrolada num papel, começo a devanear sobre minha vida, sobre em que momento aquela pessoa irá recuperar a consciência de minha existência, e se essa for recuperada em que instante ela irá me dar o direito de ser amado? Há quem creia que devemos esperar pois o tempo a tudo dá jeito, e o que lhes resta? Eu respondo, as cinzas, como as deste cigarro! Foi isso que me restara por minha ingenuidade em crer em humanos passiveis de erros.
É ardilosamente agradável ouvir os estalidos originados do calor da brasa, faz-me pensar no amor que outrora acreditei sentir, no quão forte e ardente fora, faz-me voltar de minhas ilusões, faz-me lembrar que devo tragar mais uma vez, faz-me esquecer que devo amar a quem me ama, e remete-me novamente a pensar em quem me esquecera.
Reggys Coutinho