domingo, 25 de março de 2007

Consternação da Saudade

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Se saudade realmente tem o mesmo efeito que uma injeção letal, sinto-me agonizar.

Deixar para trás os risos, o calor, a voz e o cheiro daqueles que amam, é tão nojento como entregar o coração aos carniceiros urubus. Estes são almas sem luz, que dilaceram repugnantemente os sentimentos mais puros que oferecemos aos próximos.

Saudade, sentimento vil, repugnante e asqueroso! Por que se acampou em meu peito? Por que queres sufocar meu amor por todos?

Se pudesse dizer algo sobre o amor, diria que este está diretamente e indiretamente, numa combinação incomum, excepcional e incondicional, com a amizade. Dizer que se ama é algo puro e não deve ser banalizado. Dizer que se ama um amigo, é um hábito grosseiro que todos devem adquirir. Infelizmente são poucos que sabem ouvir um “eu te amo”, por isso digo que é um costume grosseiro, e por isso também não pronuncio, embora sinta.

Aprecio aqueles que souberam ouvir das vibrações vocálicas que arrombaram o sigilo do ar, num tom agradável e doce, minha frase. Gosto daqueles que contemplaram a passagem ininterrupta das vogais, o encontro da língua com os dentes e a junção dos lábios para aquela pequenina frase elaborada e executada em frações de segundos. Admiro aqueles que após este ato de entrega, secundaram com a mesma frase. Poderia dizer muitos nomes de quem amo, mas a injustiça da minha memória fraca não me permite.

Amo e sei quem amo. Amo e sentem que amo. Mas a Saudade aborrecível não permite que eu sinta dos que me amam o sentimento de entrega, me faz sentir-me insulado, como se estivesse numa enorme favela, vazia, mórbida.

Quero dizer que te amo não como amante, mas como amigo. Quero dizer que vos amo não como amigos, mas como irmãos. Quero dizer que me amo não como Narciso, mas como os Deuses. Quero dizer que sinto a minha, a tua e a vossa falta, que quero todos próximos a mim para eu poder beijar e entregar-me evitando assim o suicídio da minha alma.

Sua tua falta amigo. Sinto a tua falta amiga.

Aos que se julgam meus inimigos, peço perdão pela ausência, se me odeiam é porque já me amaram. Se me têm como inimigo é porque apresento muita significância à tua vida, a saudade também baterá em teu coração e talvez apague esse ódio.

Estou tão fatigado que o medo me corre as veias. Tenho medo de piscar e perder um instante de uma figura amiga. Quero abarcá-los tão fortemente como um abraço faminto de uma sucuri, os beijarei com meus lábios molhados tão quanto uma chuva de verão, e acariciarei a cada um suavemente como a ventania que bagunça meus cabelos.

Sinto em ter que partir novamente, mas quero regressar antes de afastar-me.

Amigos venham resgatar-me de mim mesmo, estou a vossa espera. Não demorem, por favor.

Reggys Coutinho

sexta-feira, 9 de março de 2007

Em Branco e Preto

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Carlos era um menino simples, tinha dezesseis anos, freqüentava a escola, escovava os dentes ao acordar, após as refeições e ao ir para a cama. Tinha olhos profundos num marrom barral, cabelos negros e firmes, não lhe faltava um só membro, não tinha nenhuma das enfermidades dos três macacos, porém algo lhe perturbava, e não era o fato de ter as pernas levemente tortas, era o fato de tê-las pretas como todo o teu corpo.

Carlos era amigo de Daniel, um menino exemplar, tirava altas notas na escola, vestia-se muito bem, andava sempre limpo. Tinha os olhos assim como os cabelos num castanho claro amadeirado e cintilante, gostava de cores claras e a única coisa escura que andava com ele era Carlos, Daniel fazia questão de deixar isso claro.

Carlos gostava de branco, mas não de brancos, para ele eles eram algozes, sempre evidenciando a sua apoteótica diferença com inúmeras figuras de linguagem. E para a surpresa de sua professora branca, ele sempre se mantia quieto.

- Esse negrinho deve estar aprontando – pensava ela.

Daniel era popular entre as garotas, sempre recebia bilhetinhos apaixonados. E com sorrisos, sarcásticos ou não, os mostrava a Carlos e repetia a mesma pergunta com uma faísca estalada nos olhos:

- Você recebeu algum?

Carlos por sua vez o olhava com ar embriagante e dava sempre a mesma resposta:

- Não.

Diante de um desses cotidianos diálogos, a resposta de Carlos fora diferente. Dissera ele que não, mas que não se importava, pois estava apaixonado. Daniel estalou os olhos com uma indignação implícita e soltou inconsequentemente uma frase:

- Quem olharia para um negro?

Carlos levantara-se da calçada a que estava sentado e passou a caminhar freneticamente em direção a sua casa. Aquela noite este não pregara os olhos, a frase voltava a tua cabeça inúmeras vezes. Seu asco para com os brancos aumentara consideravelmente, em proporções maiores contra Daniel. Durante vários dias a aversão os mantivera em pólos diferentes, evidenciando a diferença colorida do mesmos tecidos corpóreo, que agora atingira a alma de ambos. Carlos ouvira por incontáveis vezes motejos sobre tua pessoa, e o ódio corria em teu sangue rubro tingindo roseamente teus olhos embotados de lágrimas.

A professora por sua vez, castigava. Não os zombadores, mas o negrinho emotivo como o chamava. Dizia ela:

- Olha que vergonha! Um homem desse tamanho chorando por uma piadinha dos colegas. Você tem que crescer Carlos! Para lhe ensinar a ser maduro você ficará após a aula.

Carlos era um rapaz maduro!

Coincidência ou não, um dia Daniel também ficara depois da aula, e como era de se esperar, este não poupou esforços para chacotear o amigo. E num momento de solidão conjunta, Carlos com os olhos ardendo em chamas pulara animalescamente sobre Daniel, seu corpo contrastava com o outro corpo. Carlos inferira golpes violentos contra o amigo, e aquela luta branca e preta fora ganhando cores, gotículas envermelhavam o quadro negro verde, carteiras laranja eram arrastadas. Então as mãos pretas de Carlos encontravam com o pescoço branco de Daniel, e este fora arroxeando até perder os movimentos. Ao voltar, a professora pálida, por sua alvura ficará sem cor e gritava enlouquecida:

- Eu sabia que você era um animal.

Carlos pensara e então voltava a si, já não sabia o que fazer. Os gritos da professora...

- Macaco! Seu demônio!

... Estraçalhavam seu cérebro.

Quando os policiais chegaram tudo fora averiguado. A professora tranqüilizada, o corpo de Daniel fora levado ao IML e Carlos fora dar um passeio com os policiais.

Tudo que se sabe é que a professora disse ter visto o branco ainda vivo golpeando o preto, isso justificava os hematomas no corpo do mesmo, e também justificaria as fraturas das costelas que perfurara alguns órgãos de Carlos causando o seu óbito. Mas a única certeza é que Carlos e Daniel estão enterrados no mesmo cemitério, em covas que se distanciam em treze metros. E que, por ironia do destino ou não, o sepulcro de Carlos é em mármore branco, e o de Daniel é em lajes pretas.

Reggys Coutinho

quinta-feira, 8 de março de 2007

Só Queria Um Amigo

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Pensar em mudar as ordens das coisas é difícil, mas muito mais difícil é estar só. Parei e perguntei as paredes:

- Onde estão meus amigos?

Ela me responde atônita com um enorme silêncio. Sei que ela não me disse onde estavam porque também não sabia. E aquela dúvida ainda me arrebatava e querendo obter uma resposta perguntei ao retrato de um “amigo” onde este estava, e então o mesmo também me responde com um silêncio.

Busquei amigos em todos os cantos e encontrei muitos voluntários. Muitos tentaram sê-lo, mas será que somos amigos? Eles não me compreendem como meus amigos me compreenderam. Procuro aqueles outros amigos, os que sempre estiveram aqui comigo.

- Estou a tua procura amigo! – grito numa avenida de meus pensamentos. E como já era de se esperar, mais uma vez o silêncio.

Olhei pela tua janela e então indaguei:

- Fui substituído.

Sim, foi assim que me senti, é assim que estou me sentindo. Então num momento de insanidade grito aos quatro ventos:

- Amigos, os verdadeiros, por favor, voltem. Imploro-vos.

E então uma voz vem do meu peito, sagaz e cruel dizendo:

- Você teve amigos?

- Sim, tenho – respondo em meio a soluços.

- Então onde estão?

- Não sei, acreditava que eles estivessem aqui comigo, mas não os encontro.

- Então você teve amigos? – insiste a voz.

- Por que perguntas isso novamente? – retruquei atordoado.

E então a voz me disse, friamente:

- Porque se os tiveram eles não o esqueceria!

Senti um aperto no peito, como se aquela voz mastigasse meu coração, tentei retrucar, tentei soltar qualquer palavra, mas não consegui. Tudo que eu pensara é que eu havia sido esquecido, que meus amigos não se lembravam de mim, e então queria que eles rememorassem minha pessoa.

Doía tanto que não consegui mover-me. A dor voltara mais forte, sentira que não estava mais agüentando, e sozinho fui me entregando a morte pela solidão que sentira. Sei que depois de morto serei realmente descartado, mas assim, depois de morto, não sentirei a soberba da solidão.

Reggys Coutinho