quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Um Brinde

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Brindemos à falta de amor,

Brindemos à infelicidade e ao desejo de ser feliz que somente os lunáticos ainda possuem,

Brindemos à nossa falta de bom senso,

Brindemos à exaltação dos estereótipos,

Brindemos à divisão dos sentimentos por sexo,

Brindemos à nossa covardia,

Brindemos à nossa ineficiência na arte de amar,

Brindemos à nossa cegueira da alma,

Brindemos à todas as inverdades que adoramos acreditar,

Brindemos aos falsos amigos,

E brindemos, especialmente, à nós.

Reggys Coutinho

Sem Memórias

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Ascendo um cigarro em memória da minha desmemoria, trago-o sem remorso do mal que faço a mim mesmo, do mal que faço a pessoa sentada ao meu lado que diz que me ama e que eu esquecera de amar. Sorvo aquela fumaça branca aparentemente filtrada em meus pulmões com tal força quanto não anistio a desmemoria de quem amo.

Em meus lábios fica um doce sabor, é como se pudesse me lembrar da minha infância que por ter sido tão feliz já não me recordo mais. É incrível como não me lembro dos sorrisos que dei quando criança, é incrível como não rememoro de muitas pessoas que passaram em minha vida e a marcaram. Mas aquele ser em específico, que não me identifica em meio aos outros, não esqueço. É como o cheiro grave e arrastado desta fumaça que me remete a uma viagem as Índias, sempre que o sinto sei qual sua origem, sei qual o teu sabor.

Observo a brasa consumir lentamente esta porção de fumo e especiaria enrolada num papel, começo a devanear sobre minha vida, sobre em que momento aquela pessoa irá recuperar a consciência de minha existência, e se essa for recuperada em que instante ela irá me dar o direito de ser amado? Há quem creia que devemos esperar pois o tempo a tudo dá jeito, e o que lhes resta? Eu respondo, as cinzas, como as deste cigarro! Foi isso que me restara por minha ingenuidade em crer em humanos passiveis de erros.

É ardilosamente agradável ouvir os estalidos originados do calor da brasa, faz-me pensar no amor que outrora acreditei sentir, no quão forte e ardente fora, faz-me voltar de minhas ilusões, faz-me lembrar que devo tragar mais uma vez, faz-me esquecer que devo amar a quem me ama, e remete-me novamente a pensar em quem me esquecera.

Reggys Coutinho

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Minha Última Dança

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(Bailarinos - Botero)


Nesta noite decidi que não mais sofrerei.

Me cobrirei com meu melhor vestido, o que tu havias me presenteado e jamais me vira usar. Me perfumarei com minha água-de-cheiro favorita, a que tantas vezes fizeste dizer que adorava meu olor. Não me maquiarei, não agora enquanto derramo minhas lágrimas, quando estas não mais caírem, então passarei o teu batom predileto, não carregarei na pintura para que tu possas ver minha verdadeira face pela última vez.

Tragarei o meu mais apreciado vinho na minha mais bem quista taça, sairei pela porta onde tantas vezes entraste e saíste, encontrarei-me contigo e lhe convidarei para acompanhar-me na minha última noite ao teu lado. Lhe chamarei de amigo, como sempre fiz, e lhe farei minhas últimas confissões. Revelarei que te amei, que fiz tudo o que pude para lhe ver feliz mesmo a distância. Por este propósito, a tua felicidade, escondi este sentimento de ti. Nada esperarei em troca, somente que ainda me lembres como tua amiga.

Colocarei a música que sempre cantávamos juntos, que tantas vezes me fez dizer que te amava, e que por tua eficaz desatenção não lera entre meus lábios minhas juras de amor. Rodarei, darei piruetas, gargalharei e num gesto persuasivo e incitante te puxarei e dançarei pela derradeira vez contigo. Passarei minhas mãos em teus cabelos, sentirei teu odor, olharei em teus olhos e esperarei um beijo... Um beijo que não virá. E então lhe sorrirei, lhe farei uma reverência e sairei lentamente da tua vida para que possas ser feliz com teu novo amor.

Reggys Coutinho

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Carta de Alforria

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(Operários - Tarsila do Amaral)


Paro na minha insignificante presença e deixo aflorar tristes e mórbidos pensamentos. Pensamentos estes que ilustram em preto e branco a irracionalidade humana que tingiu de vermelho muitos quadros da nossa história, tingem gradativamente de cinza os nossos dias e mesclam de negro muitas almas inocentes que, por sua vez, também são perversas.

Pinto nestas linhas, aparentemente azuis, o quadro vermelho de Napoleão e Hitler que não foram tão crueis quanto o quadro escarlate da Inquisição. Pinto o rubro quadro de Varsóvia e Berlim, pinto com as tintas das linhas dos Estados Unidos da América o retrato de Hiroshima, do Vietnã, do Paquistão, do Iraque, e por quê não com estas mesmas tintas pintar a guerra de povos irmãos como Israel e Palestina?

Quero ilustrar a tinta óleo os magníficos mananciais de água de diversos países. Nações que admiram estarrecidos e alegres as imensas esculturas que se formam nas margens dos mesmos, esculturas feitas de pontas de cigarros, latas, garrafas plásticas, verdadeiros amontoados de lixos, sucatas. Quero desenhar com carvão as nossas magníficas matas e grafitar na sala as bucólicas árvores de pedra que se erguem retumbantes nos centros das cidades, e pixarei os riachos negros, profundos e esterilizantes que circundam quadraticamente estas árvores. Quero mostrar aos ascendentes de todos os tempos o céu profundamente azul da minha memória que eles não conhecerão.

Pintarei em uma imensa tela com batons negros firmes os quase inquebrantáveis traços da discriminação das diferenças que até os gêmeos unicelulares possuem entre si. Maquiarei as faces das não-donzelas para disfarçar e mascarar a inveja por saber que são infrutíferas. Cantarei para não ouvir as heresias cuspidas das bocas dos aflitos que afligem, cegarei a mim e a meus filhos para não vermos a crueldade dos santos, nem a bondade dos carrascos. Que meus filhos não sejam e nem se sintam superiores na inferioridade imposta, que sejam cientes que são inferiores, e então sim serão superiores, e a isso dou o nome de respeito a si próprio e amor ao próximo.

Sei que nunca poderemos tingir de azul nossa história carmim de heróis cruéis, mas podemos pintar de verde novamente nossas paisagens, e pincelar em tons pastel as telas de seda das nossas almas. Espero voltar a ver este mundo com novos olhos e cores diferentes a estas que vejo hoje, mas só verei isso quando todos exigirem as suas cartas de alforria do nosso mais algoz Senhor, o dinheiro, pois entre estas linhas, que pra muitos serão inúteis, está ele sorrindo e dizendo:

— Fui criado por vós para ser controlado, tolos, pois sou eu quem vos controla, fizestes guerras por minha causa, acabastes com vossas riquezas por minha causa, não tendes mais saúde por minha causa, clamais a Deus por minha causa, passais fome por minha causa, morrereis por minha causa, e ainda pensareis que é meu dono. Pobre de vós, pois teu dono sou eu, trabalhareis por mim, trabalhareis até a morte por mim, e ainda assim sereis meu escravo.

Reggys Coutinho