Se saudade realmente tem o mesmo efeito que uma injeção letal, sinto-me agonizar.
Deixar para trás os risos, o calor, a voz e o cheiro daqueles que amam, é tão nojento como entregar o coração aos carniceiros urubus. Estes são almas sem luz, que dilaceram repugnantemente os sentimentos mais puros que oferecemos aos próximos.
Saudade, sentimento vil, repugnante e asqueroso! Por que se acampou em meu peito? Por que queres sufocar meu amor por todos?
Se pudesse dizer algo sobre o amor, diria que este está diretamente e indiretamente, numa combinação incomum, excepcional e incondicional, com a amizade. Dizer que se ama é algo puro e não deve ser banalizado. Dizer que se ama um amigo, é um hábito grosseiro que todos devem adquirir. Infelizmente são poucos que sabem ouvir um “eu te amo”, por isso digo que é um costume grosseiro, e por isso também não pronuncio, embora sinta.
Aprecio aqueles que souberam ouvir das vibrações vocálicas que arrombaram o sigilo do ar, num tom agradável e doce, minha frase. Gosto daqueles que contemplaram a passagem ininterrupta das vogais, o encontro da língua com os dentes e a junção dos lábios para aquela pequenina frase elaborada e executada em frações de segundos. Admiro aqueles que após este ato de entrega, secundaram com a mesma frase. Poderia dizer muitos nomes de quem amo, mas a injustiça da minha memória fraca não me permite.
Amo e sei quem amo. Amo e sentem que amo. Mas a Saudade aborrecível não permite que eu sinta dos que me amam o sentimento de entrega, me faz sentir-me insulado, como se estivesse numa enorme favela, vazia, mórbida.
Quero dizer que te amo não como amante, mas como amigo. Quero dizer que vos amo não como amigos, mas como irmãos. Quero dizer que me amo não como Narciso, mas como os Deuses. Quero dizer que sinto a minha, a tua e a vossa falta, que quero todos próximos a mim para eu poder beijar e entregar-me evitando assim o suicídio da minha alma.
Sua tua falta amigo. Sinto a tua falta amiga.
Aos que se julgam meus inimigos, peço perdão pela ausência, se me odeiam é porque já me amaram. Se me têm como inimigo é porque apresento muita significância à tua vida, a saudade também baterá em teu coração e talvez apague esse ódio.
Estou tão fatigado que o medo me corre as veias. Tenho medo de piscar e perder um instante de uma figura amiga. Quero abarcá-los tão fortemente como um abraço faminto de uma sucuri, os beijarei com meus lábios molhados tão quanto uma chuva de verão, e acariciarei a cada um suavemente como a ventania que bagunça meus cabelos.
Sinto em ter que partir novamente, mas quero regressar antes de afastar-me.
Amigos venham resgatar-me de mim mesmo, estou a vossa espera. Não demorem, por favor.





