sexta-feira, 9 de março de 2007

Em Branco e Preto

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Carlos era um menino simples, tinha dezesseis anos, freqüentava a escola, escovava os dentes ao acordar, após as refeições e ao ir para a cama. Tinha olhos profundos num marrom barral, cabelos negros e firmes, não lhe faltava um só membro, não tinha nenhuma das enfermidades dos três macacos, porém algo lhe perturbava, e não era o fato de ter as pernas levemente tortas, era o fato de tê-las pretas como todo o teu corpo.

Carlos era amigo de Daniel, um menino exemplar, tirava altas notas na escola, vestia-se muito bem, andava sempre limpo. Tinha os olhos assim como os cabelos num castanho claro amadeirado e cintilante, gostava de cores claras e a única coisa escura que andava com ele era Carlos, Daniel fazia questão de deixar isso claro.

Carlos gostava de branco, mas não de brancos, para ele eles eram algozes, sempre evidenciando a sua apoteótica diferença com inúmeras figuras de linguagem. E para a surpresa de sua professora branca, ele sempre se mantia quieto.

- Esse negrinho deve estar aprontando – pensava ela.

Daniel era popular entre as garotas, sempre recebia bilhetinhos apaixonados. E com sorrisos, sarcásticos ou não, os mostrava a Carlos e repetia a mesma pergunta com uma faísca estalada nos olhos:

- Você recebeu algum?

Carlos por sua vez o olhava com ar embriagante e dava sempre a mesma resposta:

- Não.

Diante de um desses cotidianos diálogos, a resposta de Carlos fora diferente. Dissera ele que não, mas que não se importava, pois estava apaixonado. Daniel estalou os olhos com uma indignação implícita e soltou inconsequentemente uma frase:

- Quem olharia para um negro?

Carlos levantara-se da calçada a que estava sentado e passou a caminhar freneticamente em direção a sua casa. Aquela noite este não pregara os olhos, a frase voltava a tua cabeça inúmeras vezes. Seu asco para com os brancos aumentara consideravelmente, em proporções maiores contra Daniel. Durante vários dias a aversão os mantivera em pólos diferentes, evidenciando a diferença colorida do mesmos tecidos corpóreo, que agora atingira a alma de ambos. Carlos ouvira por incontáveis vezes motejos sobre tua pessoa, e o ódio corria em teu sangue rubro tingindo roseamente teus olhos embotados de lágrimas.

A professora por sua vez, castigava. Não os zombadores, mas o negrinho emotivo como o chamava. Dizia ela:

- Olha que vergonha! Um homem desse tamanho chorando por uma piadinha dos colegas. Você tem que crescer Carlos! Para lhe ensinar a ser maduro você ficará após a aula.

Carlos era um rapaz maduro!

Coincidência ou não, um dia Daniel também ficara depois da aula, e como era de se esperar, este não poupou esforços para chacotear o amigo. E num momento de solidão conjunta, Carlos com os olhos ardendo em chamas pulara animalescamente sobre Daniel, seu corpo contrastava com o outro corpo. Carlos inferira golpes violentos contra o amigo, e aquela luta branca e preta fora ganhando cores, gotículas envermelhavam o quadro negro verde, carteiras laranja eram arrastadas. Então as mãos pretas de Carlos encontravam com o pescoço branco de Daniel, e este fora arroxeando até perder os movimentos. Ao voltar, a professora pálida, por sua alvura ficará sem cor e gritava enlouquecida:

- Eu sabia que você era um animal.

Carlos pensara e então voltava a si, já não sabia o que fazer. Os gritos da professora...

- Macaco! Seu demônio!

... Estraçalhavam seu cérebro.

Quando os policiais chegaram tudo fora averiguado. A professora tranqüilizada, o corpo de Daniel fora levado ao IML e Carlos fora dar um passeio com os policiais.

Tudo que se sabe é que a professora disse ter visto o branco ainda vivo golpeando o preto, isso justificava os hematomas no corpo do mesmo, e também justificaria as fraturas das costelas que perfurara alguns órgãos de Carlos causando o seu óbito. Mas a única certeza é que Carlos e Daniel estão enterrados no mesmo cemitério, em covas que se distanciam em treze metros. E que, por ironia do destino ou não, o sepulcro de Carlos é em mármore branco, e o de Daniel é em lajes pretas.

Reggys Coutinho

5 comentários:

Lari disse...

Uou!!


Que lindo isso!!!... naõ a estória... mas os sentimentos e o modo como você escreve!!



amei!

MAJ disse...

AEIOhAOEhiAIOEHoAEH!
Odeio preto! Me chama de Daniel!
IOAEHAIEHOAIHEioAEHioAHEIOaE
To zuando , sabe!?
Eu curti esse texto, mas o que eu mais curti foi o final. Muito bom.

Unknown disse...

nuss reggys.......muitoo massa...tipo bem a realidade infelizmente vivemos neh....:(....

Unknown disse...

nhaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!!!!!!
amei! ^^
eu curto preto
nha, o final foi o melhor, mto bom!
vc se supera a cada dia amor
bjao!!! xD

Unknown disse...

eita!!! esse eh meu amigo escritor, poeta....

Parabens Reggys!!